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DITADURA NUNCA MAIS

18 Abr

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Cinquenta anos atrás um golpe militar de direita assolou o país. Só me dei conta de quanto tempo durou quando um dia disse a meus alunos que eu tinha 2 anos quando o presidente João Goulart foi deposto e já havia me formado na faculdade quando a ditadura acabou.

Cresci ouvindo que comunismo era uma palavra feia, aprendendo a cantar musicas na escola do tipo “Esse é um país que vai prá frente…” e “Nós crianças do Brasil desde cedo aprendemos como é bom participar do futuro do país…”. Tinha prova de Educação Moral e Cívica, onde tinha que escrever de cor a letra do Hino Nacional, do Hino da Independência, do Hino da Proclamação da República e da Bandeira. Nas paradas de 7 de setembro, balançava bandeirinhas com a foto do General Médici de um lado e a do Brasil de outro. Nos jornais não havia notícias de assaltos, estupros, mortes violentas ou corrupção. Mas existia o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Em casa, via meu pai se reunir com meus irmãos mais velhos para responder se conheciam ou se eram amigos de certos estudantes, pois eram suspeitos de serem subversivos. O meu papel no interrogatório era vigiar a janela e ver se o vizinho não estava escutando a conversa. Meu pai tinha um emprego federal e temia perde-lo da mesma forma que seu antigo chefe que desaparecera numa noite e voltara algumas semanas depois para juntar a família e se mudar da cidade. Motivo: seu filho havia escrito para a embaixada de um país, pedindo informações de uma nação comunista e poderiam ser um subversivo. Meu pai tinha razão em seus temores: Quem não denunciava comunista era considerado colaboracionista e subversivo.

A medida que crescia, conseguia perceber que os filmes no cinema tinham cenas  cortadas, alguns diálogos  de novela eram cortados e em alguns jornais aparecia uma manchete sobre roubo a banco feito por terroristas e uma receita de bolo no texto.

Na minha escola, havia auto falantes nas salas que serviam para dar avisos, mas também era possível ouvir as aulas dos professores.

Só existiam dois partidos políticos, resumidos em um só nome: ARENA e meus pais só votavam em prefeito,  vereador e deputado.

Nós éramos infelizes e não sabíamos.

Em nome de uma ordem e progresso, que nunca existiram, jovens foram mortos, torturados pela direita e usados pela esquerda desejosa do poder. Artistas foram censurados, punidos, exilados por clamarem pelo direito de pensar de forma diferenciada, de querer opções.

Músicas falavam de um amor que não existia, cinema virou pornô, teatro só clássico e se necessário censurava-se William Shakespeare‎.

Tornei-me professora de história no ano em que o poder voltava para as mãos dos civis mesmo sem democracia. Não havia mais censura e Caetano já podia dizer“É proibido proibir.” E ai fui percebendo que o presidente Médici não era aquele cara bonzinho de olhos azuis e que Jango não era o banana comunista que a escola me pintou. Que história, geografia não se resumia em aprender nomes de capitais, montanhas e nem saber de cor o dia, mês e hora que Cabral chegou ao Brasil, que eram matérias que ensinavam a pensar e que foram retiradas do currículo porque não interessa a uma ditadura seres pensantes.

Percebi que a ditadura de direita prendia, matava, exilava e torturava dentro de um estado de direito acobertado por uma imprensa omissa, colaboradora ou refém  dos militares. Que havia tanta corrupção como hoje e que as construtoras fizeram a festa com obras, como por exemplo, a da Transamazônica, uma estrada que liga lugar algum a lugar nenhum. Que alguém ganhou dinheiro com uma usina nuclearque nunca funcionou deforma completa, construída em um dos lugares mais lindos do país que tem sol 365 dias por anos e um grande potencial hidrelétrico. E por falar em hidrelétrica quem será que teve a ideia de construir uma mega usina  como a de Itaipu cheia de problemas ambientais e que produz energia para o Paraguai nos vender?

O que será que foi feita da Ferrovia Norte-Sul e de tantas outras obras que não saíram do papel? Só na minha região uma estrada ligando dois municípios deve ter sido pavimentada uma 5 vezes e até hoje não foi concluída e nem era uma obra faraônica.

Inflação era uma coisa tão corriqueira que armazenar produtos do supermercado era um ato comum às famílias que podiam comprar.

Havia menores de ruas, mendigos e pedintes em um número proporcional ao de hoje. Éramos assaltados pelos bandidos da rua e da política. E por que não sabíamos de nada? Não havia tanto acesso aos meios de comunicação e os que existiam, como já disse eram censurados. Na minha rua, eu era privilegiada por ter TV, mesmo que visse somente a programação autorizada e jornais que circulavam em minha cidade  eram só os governistas e alienantes.

Foram mais de vinte anos lendo, vestindo, vendo TV e cinema, falando e ouvindo o que os militares ditavam. A velha fórmula de “povo analfabeto, doente e inseguro” nunca foi tão bem usada como foi durante os anos de chumbo

Não acredito que a esquerda que lutava contra a ditadura teria feito melhor se chegasse ao poder naquele período. Provavelmente haveria julgamentos e extermínios sumários dos opositores em praças e não nos quartéis.  Com certeza não haveria uma anistia nem mesmo vergonhosamente irrestrita como a que aconteceu após o fim do regime. Mas a falta de liberdades individuais que prevaleceu nestes anos, não justifica o terror implantado em nome da ORDEM E PROGRESSO.

Me arrepio quando ouço de jovens que não viveram nestes anos  e de idosos que viveram alienados, o desejo de  uma ditadura militar para mais uma vez colocar ordem no país. A ordem de uma ditadura é igual a passar fome de boca fechada. É passar fome de comida, de cultura, de arte, de conhecimento, de respeito pelo que se pensa.

Desejar uma ditadura depois de 50 anos, é voltar a uma vida antiga que nos deixou de herança a corrupção sem punição, o nepotismo, a pobreza de bolso e de ideias.

Como diz Eduardo Bueno: “País que não conhece sua história,corre o risco de cometer os mesmos erros do passado.” Parece que as pessoas que desejam uma nova ditadura, não conhecem nossa história e nem querem conhecer. Ensinam para os filhos que história é uma matéria decorativa. Literalmente, só serve para decorar o currículo, não serve para aprender a não cometer os mesmos erros.

Se vivemos hoje em um país caótico, sem referências políticas, sem  justiça, explorados pelo Estado, não se  esqueça de os políticos no poder atualmente, tiveram bons professores no passado.

 

Esta crônica foi escrita por Angela Imaculada Ferreira da Silva, Professora de História e Geografia na Escola Professor Jairo Grossi – Funec. Pós-graduada em História moderna e contemporânea

 

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O Café já está sendo servido na cidade! Fique de olho e forme sua opinião sobre Mobilidade Urbana

18 Abr

Ler forma opinião

Encontro “Mobilidade Urbana” – 23/08/2013

27 Nov

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Fotos do Encontro; https://www.facebook.com/media/set/?set=a.398508956916871.1073741829.329471123820655&type=3

Encontro “Vida Noturna em Viçosa” – 03/08/13

27 Nov

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Fotos do Encontro: 

Café Filosófico debate sobre Arte Urbana no contexto atual – 26/06/13

27 Nov

ImagemNo decorrer da história do homem, a arte sempre esteve presente, passando por mudanças ou até mesmo iniciando-as. Sua própria definição veio se modificando com o passar dos tempos, mas, de fato, ela é a uma das principais formas de expressão humana. Com o desenvolvimento da sociedade moderna, grandes centros urbanos são formados e crescem cada vez mais, e, da mesma maneira, mudanças no ser humano e em suas atividades acompanham este processo, inclusive na arte dentro das cidades. Com o surgimento desta relação entre o indivíduo e a cidade, então, muitos debates se iniciaram, e as definições ainda não são específicas. Entretanto, podemos pensar na Arte Urbana como toda forma de expressão criativa em um ambiente coletivo.

Pautado por estas e outras reflexões, o Café Filosófico promoveu um debate acerca deste tema e buscou conciliar e abrir espaço para as diversas formas de visão da comunidade viçosense para um bate-papo muito produtivo. Neste encontro, que ocorreu no dia 22/06/2013, no Bar do Marcelo, contamos com a presença de Mariana Bretas, doutoranda em estética e teoria da arte e professora do curso de Jornalismo da UFV.

O debate teve seu início com uma apresentação da professora sobre seu trabalho e também sobre as reflexões que são realizadas na área. Para isso, foram utilizadas diversas imagens de artistas que realizam suas intervenções no ambiente urbano e que tem uma grande visibilidade. Mariana destacou a importância de se pensar a cidade como um espaço que influencia o cotidiano das pessoas e que leva a diferentes maneiras de se expressar. A cidade possui um imaginário, uma memória; o espaço urbano também é construído socialmente, e cada sociedade construirá um ambiente diferenciado, sendo este, muitas vezes, um reflexo das próprias pessoas – que irão construir e reproduzir o espaço urbano de diversas maneiras, por meio de suas formas de pensar, agir, sentir etc.

A professora também mencionou a relação entre a “arte marginal” (uma arte que não está envolvida nos meios tradicionais) e a “arte efêmera” (algo passageiro, transitório, de curta duração). A arte feita nas ruas pode ser passageira e momentânea, já que não há um sistema ou métodos definidos para preservá-la. Mariana ainda chamou a atenção do público para o papel da “indústria cultural e do consumo”, que muitas vezes absorve estas produções artísticas.

Finalizando sua fala, a convidada abordou a questão da arte produzida nos espaços públicos urbanos com algumas interrogações: quais os limites destas manifestações artísticas? Quais os limites das cidades? O ritmo de vida nos grandes centros é muito acelerado, o que muitas vezes impede que as pessoas reparem em muitas coisas. A ideia da arte urbana, então, seria “chamar a atenção em meio à correria”, coloca a professora. Dessa forma, ela encerrou sua apresentação levantando a seguinte questão: “Como reconhecer estas manifestações? Qual é a linguagem das ruas?”.

A partir deste momento, o debate foi aberto ao público presente, que levantou questões acerca das provocações feitas pela professora, com reflexões como: qual a relação da Arte Urbana e o homem? Como o ser humano tenta “deixar a sua marca” no ambiente em que ele vive? Também foram colocadas em foco questões polêmicas, como o projeto de higienização da cidade de São Paulo – que levou à destruição de diversas obras de grafiteiros, já que os muros da cidade foram pintados de branco -, além de vários outros temas que se dissolveram deste caso.

O conceito do que pode ou não ser considerado como arte também foi abordado. Um dos participantes se questionou acerca da arte produzida no contexto atual – em especial a Arte Urbana – e levantou a possibilidade dela ser considerada como “a morte da arte clássica e erudita ou o seu renascimento”.

O evento foi finalizado com a exibição do documentário Exit Through The Gift Shop, de 2010, que retrata a trajetória profissional do consagrado artista de rua Banksy.

Texto: Bruno Leite

Fotos do Encontro: https://www.facebook.com/media/set/?set=a.431099400324493.1073741832.329471123820655&type=3